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PF aponta conexão entre facção criminosa e produtoras de funk

Márcio Geraldo Alves Ferreira, o Buda, considerado um dos maiores ladrões de banco do país e liderança importante da facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC), vivia dias agitados em junho de 2023. Naquele mês, uma quadrilha liderada por ele vinha se reunindo no bairro do Capão Redondo, Zona Sul de São Paulo, para alinhar os últimos detalhes de um ousado plano de resgate do chefe, preso no raio 1 da penitenciária de Presidente Venceslau, Oeste paulista. Buda era acusado de participar do assalto ao Banco do Brasil em Criciúma (SC), em dezembro de 2020, quando criminosos cercaram a cidade, trocaram tiros com a polícia e fizeram moradores reféns, em ação típica do chamado “novo cangaço”, e levaram 130 milhões de reais.

Talvez pela perspectiva de deixar as grades, Buda resolveu pressionar Henrique Alexandre Barros Viana, o Rato, por mudanças na gestão da Love Funk, uma das maiores produtoras de música funk do país. Formalmente, os donos da empresa eram Rato e a mulher, Daniela. Mas a Polícia Federal não tem dúvida de que a produtora é controlada, na verdade, pela cúpula do PCC, Buda incluído.

Para que o recado de Buda chegasse a Rato, Buda o repassou a um colega de cela, Jeferson Otacílio da Silva, o Serafim, que aproveitou a visita de uma das filhas, em 25 de junho, para retransmitir a mensagem. Assim que deixou a penitenciária, a mulher enviou áudios via WhatsApp para um traficante fora da prisão, que, por fim, encaminhou-os para Rato. “Ele tá acompanhando as ideia dos cara lá e se for preciso pro Rato dar um ou dois passos pra trás, que ele dê, entendeu? Mas aí se ele quiser continuar, aí é com ele, entendeu?” Pelo diálogo não fica claro o que seriam os “dois passos para trás”, mas a PF acredita que eles se referiam à Love Funk.

Rato entendeu o recado como uma ameaça velada. Encaminhou os áudios para Moisés Teixeira, o Careca, um dos líderes do assalto ao Banco Central de Fortaleza, em 2005 , e, segundo a Polícia Federal, outro sócio oculto da Love Funk. “Ele [Buda] fica armando tabuleiro / Dentro da cadeia”, reclamou Rato – o termo “tabuleiro” é usado pelos membros do PCC para designar ações violentas contra desafetos. “Fica em paz, mano”, respondeu Careca. “Eu vou falar procê, Careca, antigamente era muito mais fácil de resolver ‘as coisa’, mano. Quando não tinha ‘esses bagulho’ de comando [PCC] aí no meio de tudo, era muito mais fácil”, reclamou Rato.

As conversas constam em um dos celulares apreendidos pela PF na Operação Latus Actio, em março deste ano, que investiga o envolvimento da Love Funk e da GR6, maior produtora de funk do Brasil, com o crime organizado. Buda não conseguiu a sonhada liberdade: o plano de resgate foi descoberto pelo setor de inteligência da Secretaria da Administração Penitenciária do Estado de São Paulo e acabou frustrado, segundo reportagem do UOL.

Nascido e criado na Zona Leste de São Paulo, Henrique Viana ganhou o apelido de Rato pela baixa estatura e pela fama de ladrão na periferia da capital – são dezenas de passagens policiais por furto e roubo. Em 2019, abriu a Love Funk com a mulher, Daniela, e enriqueceu: a PF encontrou nos celulares do casal vídeos em que eles jogam notas de cem reais e de cem dólares para o alto em sinal de comemoração. De acordo com documento da Receita Federal obtido pela piauí, a Love Funk movimentou 173 milhões de reais entre 2019 e 2022. O dinheiro veio na esteira do boom do funk paulistano, durante a pandemia de Covid (na época, a empresa de Rato foi tema do programa Profissão Repórter, da TV Globo). Atualmente, a produtora diz gerenciar a carreira de duzentos artistas do funk, entre eles MC Paulin da Capital, MC Lipi e MC Paiva.

Além de Buda e Careca, a PF identificou mais dois sócios ocultos do PCC na Love Funk: Gratuliano de Sousa Lira, o Quadrado, que administra uma fazenda de Rato em Cajazeiras, interior da Paraíba, e Ronaldo Pereira Costa, um dos assassinos de Rogério Jeremias de Simone, o Gegê do Mangue, e de Fabiano Alves de Souza, o Paca, em 2018, no Ceará. A polícia suspeita que a dupla tenha sido  assassinada por desviar dinheiro da facção. O crime provocou um racha até então inédito entre, de um lado, Marco Willians Herbas Camacho, o Marcola, maior liderança do PCC e provável avalizador das mortes, segundo investigações ; e, de outro, parte da cúpula da facção, entre eles Daniel Vinicius Canônico, o Cego, que acabaria expulso da organização criminosa.

Fonte: Piauí

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