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Não seja dono da verdade do outro

Há especialista para tudo, inclusive compreender e resolver o sofrimento do próximo, com frases prontinhas, como “é isso mesmo”, “tenha fé”, “é seu destino”, “não desista”, “veja o lado bom da vida”, “agradeça por tudo”, “amanhã é outro dia”. É como se, num passe de mágica, as necessidades mais básicas sumissem, a fome acabasse, as dívidas fossem quitadas, a compra do remédio ficasse garantida e tudo permanecesse bem, afinal de contas é no outro que o problema está.

Tem uma “justificativa”, de quem está do lado bom do balcão, que é: “tudo no tempo de Deus”. Sim, claro, faz todo o sentido, pois é Ele o Criador, mas o que dizer ao filho faminto que implora por comida? A fé eliminaria esse e outros desejos primários? Somente a fé?!

E quando se bate em várias portas – incluindo as virtuais –  em busca de trabalho e só se recebe “nãos”, ou promessas vagas como “vamos ver depois do carnaval”. E, nesses tempos estranhos em que vivemos ultimamente, existe quem também ensine ao miserável necessitado que primeiro cuide da cabeça, depois do corpo! E o desespero de dormir perturbado e acordar desanimado permitiria essas ações? Onde, nesse estado de precariedade, entraria o “faça sua parte”?

Deve ser cômodo demais dizer que o outro vá procurar trabalho, entregar currículos ou estudar para se submeter a um concurso público. E, certamente, é muito difícil não ter como convencer do contrário quem deu as sugestões, diante de situações físicas e emocionais que somente quem passa por elas sabe e as divide com o universo, encharcadas de lágrimas e pensamentos decisivos, definitivos ou egoístas, para quem está apenas de espectador/julgador.

E aí tudo passaria por preces, orações, rezas, corridinhas no meio da rua, acendimentos de velas de variadas cores endereçadas aos mais diferentes destinatários do além e, talvez, uma consulta via SUS com um profissional que iria avaliar seu estado psicológico, mesmo sem sentir, na pele, sua dor e os motivos pelos quais você chega a pensar em desistir até de respirar, o que cessaria os tormentos que são só seus e, na hora do “vamos ver”, não interessam a ninguém mais.

São os fardos humanos despejados em ombros mundo afora. São homens e mulheres que se esforçam, aos seus modos, mas os passos são lentos demais e o decorrer dos dias, das semanas, dos anos, vai reduzindo até a capacidade de resiliência, quando o lado sombrio da existência é mais frequente e certezas que, antes, eram tão vivas e quentes vão perdendo o brilho, sendo substituídas pela finitude de tudo que maltrata e retira a dignidade de, pelo menos, sobreviver.

Se não pode fazer nada para ajudar, pelo menos não julgue. Não se ache o dono da verdade do outro. Quem gosta de viver na sarjeta, na podridão, no esquecimento?  Será que o comodismo e a preguiça são o alento para alguém? Ou qual socorro estaria faltando?

E que nesse cenário por demais complexo e sofrido, pelo menos exista a misericórdia de se oferecer um cafezinho ao alvo de tantos olhares e interpretações, para driblar o estômago e derreter um pouco do gelo que paralisa a alma.

Abraço!

João Ricardo Correia

Imagem gerada por IA

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