
O silêncio, muitas vezes, é uma das últimas formas sensatas de pedir socorro. É quando o corpo de um precisa de ajuda, mas a insensibilidade do outro prefere a distância ou, mais cruelmente, ignora e/ou procura respostas mesquinhas para despejar um balde de água gelada naquela alma fervente, desesperada, carente, que não aprendeu ao longo dos anos a “fazer barracos”, vomitar ameaças, planejar extorsões veladas, muito menos se prevalecer de falsas religiosidades, para justificar encenações patéticas que entorpecem plateias não menos ridículas, interesseiras e igualmente covardes.
Os que silenciam e recusam auxílio, quem sabe, podem ser os mais precários, pois já não percebem a mínima condição de juntar os cacos do tempo que parece estar, cada vez mais, próximo de findar, sepultando com o cadáver os sofrimentos, dores, angústias, desesperos e humilhações.
Os peritos criminais sabem que o “corpo fala”, tanto que buscam nele evidências que se transformem em provas, para elucidar dúvidas. Imagine então você, que me honra com sua leitura, o que não pode ser extraído de alguém, mesmo quase permanentemente silente, que ainda tem o coração pulsante, os impulsos elétricos cerebrais ativos e o olhar com raios de vida!
Sagrada e louvável a condição de quem, além de interpretar, consegue promover algum movimento, por mais simples que pareça, um aperto de mão, perguntar se está precisando de algo, para tentar minimizar aquela condição do semelhante que, na maioria das ocasiões, não busca nada além de um estado de quietude, descanso, companhia, assistência, paciência, durante o tempo que lhe resta, para que sobreviva com dignidade. Sim, a palavra é essa: dignidade, quando o respeito sufoca julgamentos e o momento atual é o que importa, pois o passado nem existe mais e o futuro é incerto, sempre será, felizmente, para que não alimentemos a pretensão de acharmos ser melhores que quaisquer outros, tão abandonados pelo amanhã, quanto nós.
O silêncio chega em passos lentos, não nasce da noite para o dia. É uma caminhada longa, vencendo trilhas, superando obstáculos, até se estabelecer. Desliza entre multidões, como também tem acesso livre em ambientes com pouco movimento. Silenciar é saudável, quando em circunstâncias tranquilas, com a serenidade falando baixinho no ouvido, dizendo que está tudo bem. Ficar em silêncio, quando não tem como clamar por alguém, é um perigo, motivo de alerta, de apreensão.
Prestemos atenção nos silêncios ao nosso redor e, evidentemente, em nossos silêncios, enquanto há tempo. E quanto tempo ainda existe?
Vou ali botar água no fogo, para mais um cafezinho.
Abraço!
João Ricardo Correia
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