
Quem dera ser um andarilho! Sair por aí, sem destino, livre de quaisquer amarras físicas ou emocionais. Dormir aqui, acordar ali, na incerteza de quase tudo, com a convicção que está livre para errar, acertar, tentar, sorrir, chorar. Ter tempo para sentar na beira de uma calçada e até, quem sabe, puxar uma conversa com semelhantes na mesma situação.
Andar carregando apenas o necessário, numa velha mochila e no coração. Entender que o quase nada, às vezes, é tudo; e que o que parece tudo, tantas vezes, não significa nada, a não ser fardos transformados na concretude de ilusões que nos consomem, enganam, atormentam, sufocam, maltratam, humilham.
Tantas estradas, trilhas, ruas e vielas a serem exploradas. Quantas histórias interessantes a serem ouvidas, que muitas vezes estão ali, aprisionadas em vozes caladas por não terem com quem conversar, nem que seja para desabafar, nem que seja para compartilhar o que transborda na fraqueza da existência humana.
Em quantos lugares eu poderia chegar, em tantos bancos de praças poderia descansar e observar ao redor. Quantos personagens interessantes eu encontraria, cada um com seu enredo, suas falas, iguais a mim, ali, dividindo o mesmo ambiente, correndo os mesmos riscos, saboreando todas as nuances, arriscadas ou não, da liberdade de ir e vir, tal qual um pássaro que até pode ser engaiolado ou virar alvo de um caçador, mas que um dia já cantou lá no alto e, depois, foi pra lá e pra cá, voando, voando, voando…
Seria ótimo ganhar um cafezinho quente e um sorriso de quem tivesse compaixão de mim. E se dali nascesse uma amizade, uma paixão, ou simplesmente o respeito entre pessoas que não cobrassem nada uma da outra, a não ser respeito e cumplicidade?!
Caminhar no azimute da vida, lenta e constantemente, convicto dos limites impostos pela idade, entendendo as regras do tempo, passando tantas necessidades físicas, algumas vezes faminto pela sobrevivência carnal, mas saciado do desejo de, finalmente, desfilar pela passarela mundana com a dignidade que protege de julgamentos de pessoas que nunca nos acrescentaram e jamais nos acrescentarão algo de valor.
Impossível tornar-me um andarilho?! Claro que não! Ainda bem que não sei o que acontecerá comigo no próximo segundo. Resta-me a esperança de ser livre. Por enquanto, a realidade é outra: ríspida, mesquinha, humilhante, devastadora.
A você que tem respeito pela minha existência, só tenho a agradecer.
Se um dia nos encontrarmos por aí, ficarei muito feliz se você se aproximar de mim, estender a mão e disser que sabe quem sou.
Um abraço,
João Ricardo Correia
Imagem gerada por IA
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