
Os dias têm sido menos apressados ultimamente. Na última semana de 2025, retornei à base, voltando a morar com minha mãe. Ela está mais teimosa, mais impaciente, mais lenta; eu também. Aos poucos, tenho me adaptado àquele mundo tão instigante, orquestrado por uma mulher de 89 anos, viúva recente, que ainda não admitiu completamente a partida do companheiro por 60 anos, meu pai.
Estou reaprendendo a dormir cedo. Por vezes, na madrugada, quando ainda estou ouvindo notícias no radinho ao pé do ouvido, levanto e caminho devagar, para observá-la pela janela do quarto, dormindo e dando belas roncadas, na certeza que o dever está cumprido e tem garantido o sono tranquilo. A iluminação da pequena lâmpada, que realça os santos que habitam sua gruta sagrada, aponta o caminho.
É o artesanato da vida exposto. É o tempo, meu maior aliado, mostrando, de novo, que apenas somos personagens coadjuvantes desse estágio onde respiramos tão automaticamente, que, muitas vezes, nem damos valor à simplicidade que nos invade com valores, não com preços.
E os dias seguem… Geralmente, saio da cama mais cedo. Abro portas e janelas, retiro os 16 cadeados espalhados pela casa, cuido dos canários, das duas Agapornis, troco a água açucarada dos beija-flores, rego as plantas do jardim e deixo as do quintal para ela.
Nesses tempos tão estranhos, repletos de artificialidades, de idiotas cagando regras e autoridades supremamente cretinas, sou privilegiado em dividir cada segundo com a mulher que me ofereceu minha primeira morada, uma senhora que pouco frequentou os bancos escolares de “Santa Cruz do Inharé”, onde garante ter vivido seus melhores momentos, mas que ensina olhando, silenciando e, por vezes, até falando demais; cabe-me filtrar tudo e aproveitar até a última gota, como se fosse um cafezinho quente, forte e sem doce.
Nos últimos dois dias, fomos à farra: ontem, 7, saímos cedo, fomos à agência bancária, supermercado, compramos cajus e goiabas numa banquinha lá no bairro do Alecrim, onde moramos por tantos anos. Hoje, cedinho na rua, a idosa e o quase idoso (será que chegou lá?): pagar contas na lotérica, comprar remédios, fazer a “feira do mês” e ainda deu tempo para passar na Havan, aqui em Natal, para ela comprar um conjunto de copos de vidro, por R$ 29,99, com a justificativa de “pode chegar alguém e quero esses copos para servir água”. Ora, como se já não tivesse uma danação de copos, xícaras, enfim…
Tempo sagrado. Tempo de mãe e filho mais juntos. Antes, eu falava com ela todos os dias, por telefone, e sempre que podia, vinha desembestado para vê-la, dar um cheiro na cabeça, pedir a “bença” e jogarmos conversa fora. Eis que o universo decidiu nos colocar nessa nova temporada juntinhos. O que penso disso? Sorte a minha! Tempo zero para o restante do universo.
Obrigado a você, que leu esse texto até aqui!
Que o seu tempo seja proveitoso e que você tenha companhias que te reconheçam em quaisquer circunstâncias e te acolham, mesmo sabendo das suas fraquezas, das suas dores, das suas inquietudes, da sua miséria.
Abraço!
João Ricardo Correia
Imagem gerada por IA
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