
Como era bom o tempo em que a gente ia a uma agência dos Correios, livrarias ou bancas de jornal comprar os cartões de Natal. Preencher cada um deles cuidadosamente, criando frases cheias de significados. Eu sempre lembrava das professoras e colegas de sala de aula. Nem sempre recebia cartões “retribuindo os votos”, mas no ano seguinte enviava novamente, para as mesmas pessoas; nunca fiz nada aguardando o retorno. Os dias não voltarão, mas as lembranças, quase todas, permanecem.
Tanta gente passou por nós deixando sentimentos e/ou cicatrizes. Quantas dessas pessoas já não estão mais por aqui, de outras perdemos o contato, restando a saudade, a ausência e a sorte de, muito raramente, reencontrá-las por aí, nem que seja por meio de uma rede social, de um aplicativo de mensagem.
Os cartões físicos praticamente sumiram. A era da digitalização esfriou tudo, criou e alimenta uma geração de “zumbis” improdutivos que se resumem a sorrisos sem graça e olhares fixos nas telas de celulares e computadores. Diferentemente de antigamente, quando enviar/receber uma correspondência demorava dias que pareciam intermináveis, hoje, a ansiedade faz com que muitos não voltem a respirar normalmente, enquanto não tiverem, pelo menos, a certeza que determinado conteúdo foi “visualizado”. É a pressa imprimindo regras que são aceitas por quem não consegue perceber que ninguém sabe o tempo que ainda resta.
Os dias filtram nossa existência. É o passar das horas peneirando os momentos, deixando escapar quem é, literalmente, menor, sem graça, insignificante para nós. Ficam os, teoricamente, mais robustos, encorpados, mas que, nem sempre, nos farão felizes, daí precisamos agir rápido, para que as impurezas mascaradas não nos ameacem de forma mais duradoura.
Nesses dias estranhos em que sobrevivemos, muitas mensagens, antes enviadas como forma de ratificar a importância de alguém, viraram produtos, prateleiras de vaidades, onde personagens são incorporados e não duram quase nada, pois o conteúdo é virtual, portanto, desprezível.
Preservemos nossas memórias, as boas lembranças, quem nos quer bem e joguemos na lixeira da vida os entulhos que insistem em esbarrar na gente, na maioria das vezes com sorrisos escancarados, te chamando de “querido”, “querida” e até, ousadamente, de “amigo” ou “amiga”.
João Ricardo Correia
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Imagem gerada por IA
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