
Você se foi.
O abraço faz falta.
Seu cheiro não está mais por aqui.
Nos entendíamos do nosso jeito.
Vez por outra, me pego te procurando.
Juro, tem dia que escuto sua voz, sinto suas pegadas.
Saudade é insistente, misteriosa. Às vezes, encurta distância, mas também maltrata.
Foram muito legais nossas conversas, todas elas.
Lembra daqueles dias que nos entranhávamos, ficávamos bravos e deixávamos o tempo sarar as feridas? E depois nos reencontrávamos.
Tem sido muito difícil chegar à casa e não te ver mais. Sua espreguiçadeira está ali, seu lugar à mesa, as sandálias no cantinho do quarto, os bonés… E na hora do cafezinho, que você não chega mais!
Você se foi. Chegou sua hora. O sofrimento acabou. Acreditar que Deus te levou diminui a dor da falta, cristaliza a vontade de tocar em você.
Preciso repetir, quase em forma de oração, que você se foi. Talvez para, quem sabe, um dia, me acostumar com sua ausência física. Em sonhos, você estava ali, tão perto, tão real, que até chego a pensar que eu deveria ter permanecido por lá, mas a realidade me desperta, percebo que ainda estou por aqui e você, definitivamente, se foi.
Pois, muito bem. Se é que, realmente, existem outras vidas, espero que você esteja muito bem e reencontre apenas pessoas que te façam bem e que valorizem cada momento ao seu lado. Se tudo não passa apenas de uma etapa e não vamos além do túmulo, fui um privilegiado em conviver contigo.
Não tenho a menor ideia de quando também irei. Estou pronto. Só peço, enquanto posso, que me atendam: sepultem meu corpo logo após a notícia final. Nada de velório, de cerimônia, de flores, cantorias. Deixem-me lá e vão aproveitar o tempo que lhes resta. Depois da morte, para o defunto, nada mais faz sentido. Ficam lembranças, apenas lembranças.
Que este Dia de Finados seja de reflexão, oração, perdão, misericórdia, recordação e fé, como deveria ser qualquer outra data do calendário. Dias são apenas dias. A importância de cada um deles somos nós que damos. Por falar nisso, quantos dias ainda temos pela frente? Será que ainda teremos tempo para começar a valorizar o ser e perceber que o ter nada mais é que a superficialidade humana transpirando desse corpo que daqui a pouco terá virado pó?
Não adianta chorar os finados ignorados em vida.
Descansemos em paz.
João Ricardo Correia – 02112024
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