
Saudosos tempos do antigo vestibular! Era uma festa! A expectativa pela divulgação da lista de aprovados tomava conta das cidades. No rádio e na tevê, a audiência era gigante. Internet nem havia chegado por essas bandas. Quem passou, fazia questão de guardar o jornal com o nome impresso, para guardar de lembrança. Os aprovados nos cursos mais concorridos, como engenharia, medicina e odontologia, ganhavam faixas penduradas nas fachadas das casas. Os feras, quase todos, ficavam carequinhas! As feras raspavam as sobrancelhas!
Os anos foram passando, mudanças e mais mudanças ocorreram na sociedade, e as faculdades particulares viraram moda, em todos os cantos, como farmácias, servindo de opção para quem não tinha – e ainda não tem – a mínima condição de passar na “federal”. Foi mais ou menos nessa época, que começou a esculhambação, o nivelamento por baixo, com aprovados que passaram a mostrar aos vizinhos, com as quase superadas faixas nas varandas, que haviam conquistado vaga até em cursos, digamos, menos prestigiados. O negócio, literalmente, era passar. E olhe que o Instagram ainda não servia de vitrine dos egos de anônimos e famosos. Ainda hoje, tem quem comemore ter sido aprovado em primeiro lugar, em curso com apenas três concorrentes !!!! É um gênio!!!!!!!!!!!!!
O relógio correu, governantes começaram a “democratizar” o acesso às universidades e implantaram uma série de programas que facilitam o pagamento nas “privadas” e escancararam, de vez, portas e janelas das “federais”. Tem gente que faz faculdade sem pagar nada, outros jogam a dívida lá para quando concluírem os cursos. Sem esquecer das tais “cotas”, que beneficiam outra danação de estudantes. Daqui a uns dias, tomara que eu esteja enganado, o lema vai ser: “respirou, passou”! E o mercado de trabalho que dê seus pulos para acomodar os “doutores” e “doutoras”.
Do mesmo jeito que as farmácias oferecem remédios para todos os bolsos, as faculdades, também. É tomar a fórmula mágica para mostrar que conseguiu “se formar”. O depois… Bem, o depois fica pra depois, não é mesmo?
E pra completar a orgia socioeducativa nacional, com bandeiras de todas as cores, chegou o tal do Exame Nacional do Ensino Médio, o famoso Enem! O sujeito faz as provas sem nem precisar escolher o curso que pretende percorrer, muito menos apontar a segunda opção, como outrora.O porra louca vai lá, se inscreve e volta a dormir, depois de passar a madrugada com o focinho colado em alguma tela viciante.Dali a uns dias, papai, mamãe ou o “profissional de saúde” que o acompanha decidirá, com toda empatia do universo, o curso e como será a capa do caderno de dez matérias que usará nos dias vindouros.
Ainda bem que existem as exceções e nem todos estão nesse balaio. Milhares de jovens dedicados e inteligentes merecem a aprovação conquistada com tanta luta e preparo. A esses, o meu respeito e o desejo de sucesso.
Na redação, eita “bixiga taboca”, puta que pariu, essa é de lascar, o requisito para não ser eliminado é “não zerar”, ou seja, quaisquer linhas mal traçadas, que escapem do redondo (o zero, calma!), concorrem com as redigidas pelos capazes e com as que resultaram de treinos repetitivos, em aulas e aulões de reforço, que transformam até songamongas em robozinhos preparados para satisfazer o texto “dissertativo-argumentativo” exigido pelos entendidos em educação.
Se é saudosismo meu, persistirei pensando que antes a seleção dos futuros acadêmicos universitários era menos rasteira. Estou certo? Sei lá. Mas, como ainda, tenho quase certeza, podemos emitir algum tipo de opinião no Brasil, fica registrada a minha, nessa manhã de domingo, 18 de janeiro de 2026, enquanto tomo mais um cafezinho, mesmo nesse calor infernal, e aguardo o que vai sair do cardápio surpreendente de Dona Salete, minha mãe, que aos 89 anos comanda a cozinha, vez por outra deixando “passar do ponto” alguma comida.
É isso! Sim, meu filho de 18 anos, João Renato, fez o tal do Enem. Só em não ter tirado zero na redação e obtido um resultado mediano, já está planejando em qual curso conseguirá entrar. Ah, tem o Sisu, ia esquecendo dele, que mostra as vagas e organiza tudo, alimentando esperanças e sonhos da turma que daqui a algum tempo poderá dizer que tem o “terceiro grau”.
Eita, Brasil velho de guerra pra ser forte, pois há tantos anos, enfrenta quadrilhas que roubam os cofres públicos, autoridades que se acham mais supremas que a última quenga do cabaré de Maria Boa e ainda aceita que basta não zerar a nota de uma redação, para concorrer a uma vaga universitária. Não esqueçam: respirou, passou!
Abraço, turma boa!
João Ricardo Correia
Imagem gerada por IA
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