
Saudade é bicho arteiro, astucioso, medonhamente cruel. Derruba o mais forte dos homens. Desmantela a mulher mais faceira. Há quem diga que ela encurta distância; eu é que não acredito nisso. O poeta Mário Quintana já dizia: “Se me esqueceres, só uma coisa, esquece-me bem devagarinho”. Tantas madrugadas regadas a lembranças já se foram, descortinando dias e dias acinzentados.
Quantas lágrimas transbordaram e soluços sufocaram meu coração; mas, insisto. Saudade de outros maltrata, chega a desesperar, no entanto, quando já não sabemos mais quem somos e, muitas vezes, nem nos reconhecemos até mesmo diante de um espelho, é sinal que estamos com saudade de nós mesmos. E por mais que tudo pareça perdido; que todos estejam contra nós, ou vice-versa, devemos mergulhar em nossa existência, por mais caótica que pareça, na tentativa de violentar essa saudade que nos mata aos poucos, sem nenhuma pressa.
O saudoso compositor e cantor Vander Lee disse, tão sabiamente:
“Sabe o que eu mais quero agora, meu amor?
Morar no interior do meu interior
Pra entender por que se agridem
Se empurram pro abismo
Se debatem, se combatem sem saber
Meu amor
Deixa eu chorar até cansar
Me leve pra qualquer lugar
Aonde Deus possa me ouvir”
É isso! “Morar no interior do meu interior”! Nada melhor. Nada mais necessário, nesses tempos tão artificiais, apressados, onde rotulamos e somos rotulados numa velocidade impressionante.Talvez, somente assim, mergulhados em nossa fragilidade tantas vezes disfarçada e em outras explicitada, morando em nosso interior, é que possamos voltar a nos entender, nos amar, nos perdoar, nos permitir, nos suportar, diminuindo a saudade que sentimos de nós mesmos, ganhando forças, quem sabe, até para encarar a falta de terceiros. Nos reencontremos! Somos prioridade! Quem sabe quanto ainda temos de tempo para isso?!
E nessa explosão de pensamentos e fé, acreditando que Deus irá nos ouvir, providenciemos logo um cafezinho. O resto fica pra mais tarde.
Abraço!
Texto e foto: João Ricardo Correia
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